Toca o despertador. Acordo sobressaltado, com pouca vontade de me levantar, para não fugir à rotina. Deixo-me ficar mais um pouco na cama, pensando que mais um ou dois minutos não farão diferença neste início de dia de trabalho. Ganho coragem e, finalmente, levanto-me. Olho para o relógio e vejo que afinal já não me resta assim tanto tempo para me aprontar. Lavo-me e visto-me de forma célere, sem tempo de ver ou escutar qualquer tipo de noticiário. Saio de casa.
Chego à rua. Busco o local onde estacionei a minha viatura. Entretanto, não posso deixar de reparar que os contentores do lixo transbordam por todos os lados e o amontoado de lixo à volta começa já a ser desagradavelmente impressionante. Acho estranho. Mas não faço caso e sigo viagem, colocando antes um calmo CD para me ir entretendo. Rumo para o trabalho, mas não sem antes passar pelo consultório do meu médico de família, pois tinha consulta marcada há já alguns meses. No caminho, reparo que o fluxo de trânsito é superior ao normal. Não ligo. Chego ao consultório, dou com a cara na porta. O médico não vem hoje! – ouço dizer a outro utente que como eu ansiava pela sua consulta há meses marcada. Estranho de novo. Apetece-me pedir esclarecimento e responsabilidades a alguém, mas não há ninguém para o fazer, e o meu tempo já escasseia.
Faço-me à estrada, até à estação de metro, que ir de carro, à hora de ponta, para o centro de Lisboa é de doidos. Estaciono a viatura. Antes, já havia reparado em várias e longas filas de gente à espera de autocarros que não é costume ver por ali. Mais uma vez, estranho. Vou até à porta da estação. Fechada! Não há metro! Ao mesmo tempo que me deparo com mais aquela estranha situação, liga-me o meu filho: Pai, não tenho escola. Os professores e os outros funcionários não vêm. Podes-me vir buscar? Questiono-me sobre o que se está a passar realmente. Será que é hoje o fim do mundo e ninguém me avisou!?
Volto ao volante do meu automóvel. Que remédio! Lá tenho eu de ir buscar o miúdo.
Vou a meio do caminho, embutido num trânsito infernal, quando a velocidade de conta-gotas pára e, consequentemente, ali fico parado no meio de uma enormidade descomunal de carros. Há uma manifestação, ali à frente! – informa um agente da autoridade não a quem passa mas a quem queria passar, como é infelizmente o meu caso. Sem argumentos para fazer outra coisa que seja, espero e desespero.
Ligo à minha mulher, para saber como correu a ida à repartição de finanças: Não me digas nada! – exclama logo ela num tom bastante enervado – Não havia autocarros. Tive que ir a pé. E imagina tu que chego lá e estava fechada. Ouço os lamentos da minha esposa, como se tivesse opção de não o fazer, e lá permaneço: dentro do automóvel, parado, atrasado para o emprego, com o filho à espera (pois nem quero pensar no patrão), com uma consulta, que demorou meses para conseguir, desmarcada e com a mulher a berrar-me aos ouvidos, porque as finanças estavam fechadas e depois, como era perto, tentou ir renovar o bilhete de identidade à loja do cidadão, pois estava prestes a caducar, e voltou a ficar à porta. Volto a questionar-me: será que é mesmo hoje o dia do juízo final e eu não estou informado!?
A minha estranheza por aquele sui generis dia, ou apenas início dele, é imensa. Tiro o CD do leitor. Sintonizo a rádio numa estação emissora de informações com regularidade, para ver se ficava, finalmente, a saber o que se passava. Greve na função pública afecta todo o país. – escuto, quase incrédulo comigo mesmo, por não me ter apercebido antes, através de todos aqueles sinais com que me havia deparado. Até parece que é a primeira vez que isto acontece.
Desligo, desde logo, o auto-rádio. Já sabia tudo o que tinha que saber: hoje é dia de caos! Onde tinha eu a cabeça? Por uma manhã, esqueci-me que vivia em Portugal, aquele país onde em plena crise económica não se trabalha à sexta-feira (ou à quinta, se sexta for feriado), tudo pela defesa dos direitos dos trabalhadores, pela melhoria de salários e benefícios dos mesmos e, acima de tudo, pelo interesse do país (mais que não seja pelos milhões de euros que o estado poupa em salários dos ditos funcionários públicos em greve).
Não trabalhamos! Exigimos mundos e fundos! E ainda vamos de fim-de-semana prolongado! Estamos ou não estamos no rumo certo? Parece que o fundo do poço deve ser o único destino, e, enquanto isso não chega, a União Europeia vai puxando as últimas e já finas cordas onde nos podemos, ainda, tentar agarrar e trepar. Mas, assim, não esperem facilidades... Sem esforço e sacrifícios (de todos!) não se vai a lado nenhum.
Haja bom senso, meus senhores!